Espaço dedicado à troca de idéias e informações entre os profissionais de Psicopedagogia, Educação Inclusiva e Educação Infantil. Paz e Bem!

“Temos direito à igualdade quando a diferença nos inferioriza, e temos direito à diferença quando a igualdade nos descaracteriza”

(Boaventura de Souza Santos)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Escolarização e Carência de Maternagem

(por Laura Gutman) [*]
            Há alguns anos atrás, haviam muitas boas pré-escolas na Argentina [1]; algumas com excelentes projetos pedagógicos. Considerava-se como pré-escola [2] aquela que recebia as crianças de três a cinco anos. Depois iriam para a escola primária, ou seja, à escolarização propriamente dita. Também haviam as “creches” [3], onde se recebiam os bebês desde 45 dias de vida aos 3 anos, momento em que passavam para a pré-escola, com um nível diferente de atividades. As creches eram consideradas locais de cuidado e atenção aos bebês, por tanto não entravam no conceito de escolarização.
            As boas escolas primárias, com alto nível de qualidade de educação, foram incorporando à sua oferta a pré-escola – que assim tornou-se obrigatória- a partir dos 5 anos. A partir daí, começaram a oferecer às crianças de 5 anos aquilo que antigamente se ensinava às de 6: basicamente, as primeiras ferramentas de leitura e escrita [4]. Com o tempo – e submetidos a necessidades financeiras – essas mesmas escolas primárias incorporaram às suas salas as turmas de 4 anos, depois as de 3, e finalmente as de 2 anos... e hoje já incorporam as creches e berçários [5].
            Este fenômeno acarretou algumas conseqüências: a primeira é o lento desaparecimento das boas pré-escolas, que foram fechando suas portas, já que as crianças estavam em escolas onde os pais têm assegurada uma educação completa (primária, secundária e, às vezes, até universitária). Hoje, esses termos para definir níveis de escolarização tornaram-se obsoletos. Contamos com uma Lei Federal de Educação implementada na Argentina, após dar péssimos resultados em países supostamente mais desenvolvidos [6]. A ex escola primária hoje se chama Ensino Fundamental [7], e dura nove anos, em lugar de sete. O antigo ensino secundário hoje compreende 3 anos, em lugar de 5, e se chama Polivalente [8]. Porém, ao final das contas, os problemas são aos mesmos, apenas os pais se encontram mais desorientados para calcular em qual série se encontram os seus filhos.
            A questão é que as escolas – que se transformaram em enormes centros de ensino – interessam-se mais pelo Ensino Fundamental, e a Educação Infantil (que às vezes se inicia quando as crianças apenas engatinham) é apenas um lugar um lugar para ascender à verdadeira educação [9]. Por tanto, a valorização e formação dos docentes está distante da realidade emocional das crianças pequenas.
            Por outro lado, as antigas pré-escolas, com educadores especialmente capacitados para atender às necessidades educacionais de crianças de 3, 4 e 5 anos , têm se esvaziado. Para não fecharem suas portas, têm aceitado o ingresso de crianças em salas de 2 anos, 1 ano, berçários... ou seja, tornaram-se creches. O despropósito destas migrações é que as grandes escolas acabaram se ocupando de criancinhas que choram chamando a mamãe, quando seu objetivo era ensinar História, Línguas e Geometria. E, por outro lado, as pré-escolas, preparadas para desenvolverem métodos lúdicos de ensino, encontram-se com bebês que não falam e nem controlam os esfíncteres. Enfim, nada está no lugar correto... e as crianças saem muito prejudicadas.
            Como vimos, o termo escolarização tornou-se obsoleto, pois ele antes referia-se ao início da escola primária e do acesso à alfabetização e à aprendizagem matemática. Mas agora já não sabemos a quê nos referimos. As crianças em idade de brincar vão à escola em período integral; saem de casa de manhã cedo, quando seus pais vão trabalhar, e retornam ao final do dia, junto com seus pais. Estão escolarizados; por tanto os professores têm um currículo aprovado pelas autoridades educacionais, que devem cumprir. E quanto mais prestigiosa for a escola, maiores são as exigências sobre o rendimento escolar, ao ponto em que crianças de 4 anos fazem provas de inglês. Sim. Fazem provas de idiomas.
            Muitas destas crianças estão esgotadas e estressadas – termos que não mais são exclusivos dos adultos. As longas horas passadas na escola são extenuantes e já não lhes sobra energia para brincarem e se divertirem. Preferem atividades passivas, tais como comer guloseimas de frente à televisão ou jogos eletrônicos.
            A vida tornou-se por demais exigente para crianças de classe média e alta, que têm incontáveis atividades... mas que não têm tempo de se perguntar se gostam delas... e, sobretudo, não têm tempo para o silencio, para a brincadeira solitária, para o encontro com o próprio ritmo interior. Tão pouco encontram na leitura o espaço de fantasia e imaginação com que alimentávamos de fadas e duendes nossa vida cotidiana quando éramos crianças, nós que agora somos adultos.
            É espantoso que as propostas educativas sejam tão iguais entre si; quase todas as escolas oferecem o mesmo tipo de instrução: inglês e informática. As escolas públicas tentam imitar estas propostas e aspiram oferecer cada vez mais horas extracurriculares gratuitas de inglês e matemática. Encontram-se marginalizadas algumas propostas pedagógicas para as crianças sensíveis: a música, a dança, o teatro, as artes plásticas, a literatura, as brincadeiras, o xadrez ou as acrobacias. Ou também outras propostas para as crianças com mais necessidades motoras, como as atividades físicas, os esportes, a vida ao ar livre, a pesca, os acamamentos, a natação. Ou para as crianças com interesse em línguas estrangeiras, viagens, culturas diversas etc.
            Tudo estaria muito bem, se as crianças não terminassem esgotadas, sem vitalidade e agressivos com seus irmãos ao chegarem em casa. São tantos os pais quem chegam aos consultórios psicológicos preocupados com seus filhos estressados, ansiosos, nervosos ou excessivamente passivos... que devemos nos preocupar desses sintomas com a seriedade que eles exigem.
            O que as crianças já não fazem é ficar em casa, brincar em seus quartos, convidar aos amigos com suficiente vitalidade para divertirem-se. Os pais preferem que os filhos fiquem em casa, por que ali a atividade preponderante é ver TV. E vêem a TV porque não há ninguém disponível para ver a eles. De outro lado, o excesso de exigências intelectuais, cada vez mais cedo, na escola, reprime os vestígios de brincadeira e fantasia que as crianças modernas já não conseguem desenvolver. Hoje as crianças estão entediadas, a menos que consumam passivamente a TV ou o computador. A brincadeira desaparece como um modo de vincular-se a si mesmo e com os demais.
            Em conseqüências, as mães que trabalham contam prioritariamente como lugar de atenção e permanência dos filhos durante o dia. E pedem à escola que dê conta das necessidades afetivas e das exigências acadêmicas. Por isso, é cada vez maior a demanda por ampliação dos horários escolares, e é um alívio quando a criança chega aos 4 anos e pode fazer “período integral”. Se como sociedade estivéssemos dispostos a organizar comunitariamente espaços de brincadeiras, recreação, socialização e descanso, bem poderia ser a escola um lugar receptivo e amoroso para as crianças. No entanto, a necessidade familiar de deixar os filhos em “algum lugar” corresponde a uma exigência intelectual, pois encontramos crianças de 4, 4 ou 6 anos esgotados com os deveres de inglês, portugês e matemática.
É legítimo que as mães busquem instâncias suplementares de para a educação e os cuidados de seus filhos e, às medida que as suas jornadas de trabalho aumentam, necessitam que seus filhos sejam cuidados por pessoas idôneas. Mas que não nos enganemos as nos fazermos crer que nossos filhos “necessitam” à escola mais exigente, prestigioso e renomado da cidade. Sobretudo porque as escolas célebres pelo nível acadêmico são inversamente célebres pela compreensão e acompanhamento às crianças pequenas.
Os pais depositam exageradamente suas expectativas no desenvolvimento intelectual de seus filhos. Mas isso somente será possível se no período da fusão emocional, ou seja, durante os dois primeiros anos de vida da criança, a vivência da fusão, entrega, silêncios, tempo, paciência, leite materno, olhares, disponibilidade e dissolução da própria personalidade tenham construído uma maternagem suficientemente nutritiva tanto para a mãe quanto para o filho. Somente nesses casos, a criança estará tão “plena” de mamãe que poderá afrontar as exigências externas despropositadas para a sua idade, sem ferir ao seu ser essencial. Mas sabemos que, em geral, não é isto o que acontece. Ao contrário, as mães com menos disponibilidade emocional e psiquicamente mais frágeis necessitam delegar a outras instâncias aquilo que lhes falta: estrutura emocional. Porém, a escola não a oferece. Oferece instrução, acesso à cultura, socialização e espera resultados concretos. Insisto que, com uma base emocional mais sólida, as crianças podem fazer frente a estas exigências. Mas os pequenos que estejam mais “órfãos” de maternagem – ou seja, quase todos – atravessam a escolarização com feridas sangrentas, não conseguem corresponder como se espera, perdem a vitalidade, deixam de brincar, se embatem em quaisquer chances e exibem seu sofrimento em algum sintoma visível.
Então, os pais buscam consultas por estes sintomas: o muito em voga TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção), as enfermidades recorrentes, a ansiedade, o cansaço, o nervosismo, os pesadelos, a enurese, a agressividade, ou ao contrário, a extrema timidez. Costumo perguntar a esses pais, durante a consulta psicológica: “O quê o seu filho gosta de fazer?” Geralmente me respondem que gostam de jogos de computador. Porém se insisto mais um pouco, indagando sobre alguma atividade que tenham compartilhado com os filhos ou algum momento em que notaram os filhos especialmente felizes... surgem inúmeros exemplos de entusiasmo de ginástica, de música, de equitação, de atividades manuais ou pela magia casinha de bonecas da casa da vovó. Porém não há tempo para se dedicar a tudo o que entusiasma a criança, ou simplesmente não o merece “até que tenha boas notas na escola”, e com isso ficamos cada vez mais longe da busca interior da criança.
            Obviamente, não é possível uma criança em idade escolar em suas inúmeras buscas, se não toleramos entrar em contato com nossos próprios desejos perdidos ou esquecidos, por que isso nos conecta a uma dor muito profunda , com a parte mais sofrida da infância. Tudo aquilo que não foi escutado por nossos próprios pais... e que temos sido obrigados a relegar à sombra, aflora através dos “desejos descabidos” de nossos filhos... e ainda que não o saibamos conscientemente, é como um punhal para nosso coração despedaçado.
            E isso o que constato através dos relatos de muitos pais, genuinamente interessados e preocupados com seus filhos, com possibilidades econômicas de oferecer “tudo” para o seu bem estar... mas que sucumbem ante os desejos distintos de seus filhos. A incapacidade dos adultos para escutar e acompanhar as buscas das crianças é imensa. Creio, sinceramente, que isso está relacionado a essa dor antiga que se ativa, recordando-nos de que, quando éramos crianças, nos era vedado o desejar.
            Por outro lado, os pais depositam na escola expectativas descabidas, e esperam que contenham as crianças de um modo que eles mesmos não são capazes. E as escolas não conseguem fazê-lo, pois trata-se de crianças de 6 a 13 anos que continuam manifestando sua sombra familiar. Ou seja, aquilo que a criança expressa é uma desordem emocional que só pode ser resolvida em casa.
Notas da tradutora:
[1] A autora do referente texto, Laura Gutman é Argentina e refere-se ao contexto de seu país. No entanto, em minha experiência como professora de Educação Infantil por 14 anos, observo no Brasil contexto semelhante, daí a importância de traduzir esse texto, ainda inédito por aqui, para o português.
[2] Optamos por traduzir o termo “guarderías” por seu equivalente aproximado,”pré escola”, de acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). No Brasil, a pré escola vai dos 4 aos 5 anos de idade.
[3] Optamos por traduzir o termo “guadeías maternales” por seu equivalente aproximado,”creche”, de acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). No Brasil, a creche vai dos 0 aos 2 anos de idade.
[4] No Brasil, ocorreu processo semelhante com as modificações da LDB, que fizeram a incorporação das turmas de 6 anos (que anteriormente pertenciam ao nível da Educação Infantil) às séries iniciais do Ensino Fundamental.
[5] Optamos por traduzir o termo “salas de bebés a partir dos 45 días” por seu equivalente aproximado em língua portuguesa ”berçário”.
[6] Este mesmo processo deu-se no Brasil, com a implementação do Mercosul, e também através de políticas de financiamento impostas pelo Banco Mundial aos chamados países em desenvolvimento.
[7] Optamos por traduzir o termo “educaíon general básica” por seu equivalente aproximado, ”Ensino Fundamental”, de acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). No Brasil, a pré escola vai do 1º ao 9º ano, com ingresso das crianças aos 6 anos de idade na escolarização formal.
[8] No Brasil, tivemos a modificação do antigo 2º Grau em Ensino Médio, de acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação).
[9] A educadora brasileira Sônia Kramer chama esta concepção de educação infantil de “preparatória”.

[*] FONTE:
Traduzido e adaptado por Taicy Ávila, de:
Gutman,L. (2010). Crianza, violencias invisibles y adicciones (Educação dos filhos, violências invisíveis e vícios). Buenos Aires: Del Nuevo Extremo Editorial. [p. 172-178]

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Alfabetização sem Receita

Pegue uma criança de seis anos mais ou menos, no estado em que estiver, suja ou limpa, e coloque-a numa sala de aula onde existam muitas coisas escritas para olhar, manusear e examinar.Sirva jornais velhos, revistas, embalagens, anúncios publicitários, latas de óleo vazias, caixas de sabão, sacolas de supermercado, enfim, tudo o que estiver entulhando os armários de sua casa ou escola e que tenha coisas escritas.Convide a criança para brincar e ler, adivinhando o que está escrito. Você vai descobrir que ela sabe muita coisa!Converse com a criança, troque idéias sobre quem são vocês e as coisas que gostam ou não. Depois escreva no quadro algumas coisas que forem ditas e leia para ela.Peça à criança que olhe as coisas escritas que existem por aí, nas ruas, nas lojas, na televisão. Escreva algumas dessas coisas no quadro.Deixe a criança cortar letras, palavras e frases dos jornais velhos. Não esqueça de pedir para que ela limpe a sala depois, explicando que assim a escola fica limpa.Todos os dias leia em voz alta alguma coisa interessante: historinhas, poesia, notícia de jornal, anedota, letra de música, adivinhação, convite, mostre numa nota fiscal algo que você comprou, procure um nome na lista telefônica. Mostre também algumas coisas escritas que talvez a criança não conheça: dicionário, telegrama, carta, livro de receitas.Desafie a criança a pensar sobre a escrita e pense você também. Quando a criança estiver tentando escrever, deixe-a perguntar ou ajudar o colega. Aceite a escrita da criança. Não se apavore se a criança estiver comendo letras. Até hoje não houve caso de indigestão alfabética?.Invente sua própria cartilha, selecione palavras, frases e textos interessantes e que tenham a ver com a realidade da criança. Use sua capacidade de observação, sua experiência e sua imaginação para ensinar a ler. Leia e estude sempre e muito.

Receita de Alfabetização


Ingredientes:
1 criança de 6 anos
1 uniforme escolar
1 sala de aula decorada
1 cartilha
Preparo:Pegue 1 criança de 6 anos, limpe bem, lave e enxágüe com cuidado. Enfie a criança dentro do uniforme e coloque-a sentadinha na sala de aula (decorada com motivos infantis). Nas oito primeiras semanas, sirva como alimentação exercícios de prontidão. Na nona semana, ponha a cartilha nas mãos da criança.Atenção:tome cuidado para que ela não se contamine com o contato de livros, jornais, revistas e outros materiais impressos.Abra bem a boca da criança e faça com que ela engula as vogais. Depois de digeridas as vogais, mande-a mastigar uma a uma as palavras da cartilha. Cada palavra deve ser mastigada no mínimo sessenta vezes. Se houver dificuldade para engolir, separe as palavras em pedacinhos.Mantenha a criança em banho-maria durante quatro meses, fazendo exercícios de cópia. Em seguida, faça com que a criança engula algumas frases inteiras. Mexa com cuidado para não embolar.Ao fim do oitavo mês, espete a criança com um palito, ou melhor, aplique uma prova de leitura e verifique se ela devolve pelo menos 70% das palavras e frases engolidas.Se isso acontecer considere a criança alfabetizada. Enrole-a num bonito papel de presente e despache-a para a série seguinte.Se isso não acontecer se a criança não devolver o que lhe foi dado para engolir, recomece a receita desde o início, isto é, volte aos exercícios de prontidão. Repita a receita quantas vezes for necessário. Se não der resultado, ao fim de três anos enrole a criança em um papel pardo e coloque um rótulo: Aluno Renitente.Se não gostar da receita PARABÉNS.Nesse caso use a alfabetização sem receita.

Tudo o que eu precisava saber, eu aprendi no Jardim de Infância...

A
 maior parte do que eu realmente precisava saber sobre viver e o que fazer e como ser, eu aprendi no Jardim da Infância. Na verdade, a sabedoria não está lá no alto morro da universidade, mas sim bem ali, na caixa de areia da escolinha.
A
s coisas que aprendi foram estas: reparta as coisas, jogue limpo, não bata nos outros, ponha as coisas de volta onde as encontrou, limpe a bagunça que você fez, não pegue coisas que não são suas, diga que você sente muito quando machucou alguém, lave as mãos antes de comer, puxe a descarga, biscoitos e leite quentinho fazem bem.
V
iva uma vida equilibrada: aprenda um pouco, pense um pouco, desenhe e pinte e cante e dance e brinque e trabalhe um pouco... Todos os dias. Tire um cochilo todas as tardes. Quando você sair por ai preste atenção no trânsito e caminhe, de mãos dadas, junto com os outros.
O
bserve os milagres acontecerem ao seu redor. Lembre-se do feijãozinho no algodão molhado, no copinho plástico. As raízes crescem por baixo e ninguém sabe como e porque, mas todos somos assim. Peixinhos dourados e porquinhos da Índia e ratinhos brancos e mesmo o feijãozinho do copinho plástico – todos morrem. Nós também.
E
 lembre do livro do Joãozinho e Maria e a primeira palavra que você aprendeu, sem perceber. A maior palavra de todas: OLHE! Tudo o que você precisa mesmo saber está ai, em algum lugar. As regras básicas do convívio humano, o amor, os princípios de higiene; ecologia, política e saúde.
P
ense como o mundo seria melhor se todos, todo mundo, na hora do lanche tomasse um copo de leite com biscoitos e depois pegasse o seu cobertorzinho e tirasse uma soneca. Ou se tivéssemos uma regra básica, na nossa nação e em todas as nações, de pôr as coisas de volta nos lugares onde as encontramos e de limpar a nossa própria bagunça. E será sempre verdade, não importa quantos anos você tenha: se você sair por aí, pelo mundo afora, o melhor mesmo é poder dar as mãos aos outros, e caminhar sempre juntos.                                                   (Autor: Robert Fulghum)

A HISTÓRIA DE HELEN KELLER (1880-1968)


Defensora pioneira dos direitos dos deficientes físicos, Helen Keller nasceu em Tuscumbia, no estado do Alabama, nos Estados Unidos. Confinada a um mundo silencioso e escuro depois que uma doença a deixou surda, muda e cega com 19 meses de idade, ela se tornou uma criança destrutiva e voluntariosa. Quando estava com 7 anos, a família contratou Anne Sullivan (1866-1936), uma aluna recém formada do Instituto de Surdos Perkins, como professora e governanta. Após apenas duas semanas, um grande progresso ocorreu quando Helen entendeu a palavra “água” que Anne soletrava em sua mão e, a partir daí, uma ligação que durou toda a vida foi estabelecida entre ela e a professora.
Em 1900, Helen Entrou para a Faculdade Radcliffe. Anne Sullivan a acompanhava em todas as aulas e soletrava as palestras desenhando as letras com os dedos na palma de sua mão. Quando uma revista feminina pediu que Helen escrevesse sua autobiografia, Anne contratou o professor Jhon Macy para assessorá-las. “A História da Minha Vida” foi publicado em 1902. Em 1904, Helen se formou com louvor. Anne e Jhon se casaram no ano seguinte, ficando juntos até 1913.
Em 1906, quando o estado de Nova York estabeleceu sua primeira Comissão Estadual para Cegos o governador nomeou Helen Keller para a comissão e ela e Jhon Macy cruzaram o país para angariar fundos. Helen também lançou uma campanha contra a oftalmia neonatal (cegueira nos bebês) tornando-se a primeira pessoa a falar sobre como as doenças venéreas, que podiam ser prevenidas, causavam essa e outras doenças devastadoras. Posteriormente, no mesmo ano, Mary Ages Thomsom (1885-1960) foi contratada como governanta.
Em 1924 a Fundação Americana para Cegos chamou Helen para ser a sua porta-voz. Ela continuou participando ativamente de muitos movimentos por reformas sociais, incluindo ações em prol da abolição do trabalho infantil e da pena de morte. Depois da morte de Jhon Macy, em 1936, Mary Agnes passou a acompanhar Helen. Na década de 1930, Helen conseguiu fazer um lobby eficaz em Washington pela Fundação Americana para Cegos, ajudando a obter serviços de leitura e livros gravados, financiados pelo governo federal, e influenciou na decisão de incluir os cegos na categoria de crédito escolar, sob o Ato de Seguridade Social.
Durante a 2ª Guerra Mundial, Helen Keller percorreu hospitais militares para levantar o moral e, na década de 1950, fez turnês de palestras na África do Sul, Oriente Médio e América Latina, representando os deficientes visuais. Depois da morte de Mary Agnes Thomson, em 1960, Helen se retirou da vida pública. Em 1964 recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade.
Entre os livros de Helen Keller estão: “O Mundo em que Vivo” (1908) “Saindo da Escuridão” (1913), “No Meio do Caminho: Minha Vida Posterior” (1930), “Vamos ter Fé” (1940), “Professora: Anne Sullivan Macy” (1955), “A Porta Aberta” (1957). Ela também fez dois documentários sobre sua vida: “Libertação” (1918) e “Helen Keller em Sua História” (1954).

(Do livro "Cem mulheres que mudaram o mundo", de Gail Meyer Rolka, Ed. Ediouro)

As cem linguagens da criança

A criança
é feita de cem.
A criança tem
cem mãos
cem pensamentos
cem modos de pensar
de jogar e de falar.
Cem sempre cem
modos de escutar
as maravilhas de amar.
Cem alegrias
para cantar e compreender.
Cem mundos
para descobrir,
Cem mundos
para inventar,
Cem mundos
para sonhar.
A criança tem
cem linguagens
(e depois cem cem cem)
mas roubaram-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo.
Dizem-lhe:
de pensar sem as mãos
de fazer sem a cabeça
de escutar e de não falar
de compreender sem alegrias
de amar e maravilhar-se
só na Páscoa e no Natal.
Dizem-lhe:
de descobrir o mundo que já existe
e de cem
roubaram-lhe noventa e nove.
Dizem-lhe:
que o jogo e o trabalho
a realidade e a fantasia
a ciência e a imaginação
o céu e a terra
a razão e o sonho
são coisas
que não estão juntas.
Dizem-lhe:
que as cem não existem
A criança diz:
ao contrário, as cem existem.
(Loris Malaguzzi)